Mostrando postagens com marcador Textos em prosa. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Textos em prosa. Mostrar todas as postagens

19.6.24

Quando me aposentar vou morar na praia...

O cara se aposentou e foi mesmo morar na praia.

Mês a mês manda notícias contando sua nova vida para o filho.


Janeiro
Estimado filho, tenho a lhe comunicar boas novas: me aposentei e agora vamos morar na praia.
Vendemos nossa casa.
Em março estaremos de mudança para o litoral.
Lembra quando eu falava prá tua mãe?
Quando me aposentar vou morar na praia!
Ela duvidava. 
Beijo da mãe, bênção do pai.

Fevereiro
Estimado, fechei negócio: quinto andar, seis por andar, nosso apartamento é de frente para o mar. É uma suite e mais um quarto, área de serviço, dependência de empregada.Uma sala  dois ambientes e, o melhor de tudo, uma deslumbrante sacada . A vista praquele marzão é maravilhosa.
Sua mãe achou a sala acanhada para os padrões dela.
Mas apartamento de praia é assim mesmo e a manutenção fica mais barata 
Beijo da mãe, bênção do Pai.

Março
Estimado, já estamos morando na praia!
O clima é um paraíso aqui na terra.
Espetáculo.
Não chove, faz um calorzinho do bom.
Mesmo assim, providenciei o que faltava: o ar condicionado da nossa suite.
Só não instalei porque procuro alguém para fazer o serviço mais em conta.
Aqui tudo custa o olho da cara.
De resto, tudo nos conformes..
Até fizemos uma agenda para nossas atividades diárias.
8h00: despertar.
8h30: lauto café da manhã.
9h30: caminhada de uma hora na praia para respirar o ar puro e aproveitar o sol da manhã.
10h30: super mercado e tarefas externas.
11h30: sua mãe vai para a cozinha.
13h00: o delicioso almoço da mamma.
14h30: soneca.
16h00: café da tarde.
17h00: leitura do jornal e revistas.
18h00: caminhada na orla para apreciar o por do sol.
20h30: lanche e telejornal.
21h00: novela.
22h00: jogo de cartas.
23h00: prá caminha, que ninguém é de ferro.
Que Tal, filhão? 
Beijo da mãe, bênção do pai.

Abril
Estimado, já travamos amizade com os vizinhos do prédio.
Temos gaúchos, paulistas, catarinas, paraguaios e argentinos.
Só gente boa.
Novidades: já estou até tomando chimarrão e fui convidado para participar do aperitivo diário no barzinho dos aposentados.
Mudamos um pouquinho a rotina.
Das 11h30 às 12h30 faço aperitivo.
Tua mãe não gostou muito, mas ela precisa entender que  precisamos ter uma vida social.
Outra coisa:sabe a deslumbrante sacada?
Mandamos envidraçar.
A ventania é tanta que ela já estava inútil..
Tua mãe não se agradou, acha que é mais vidro prá lavar.
Beijo da mãe, bênção do Pai.

Maio
Estimado, tua mãe está bem nervosa, acha que precisamos arrumar alguma coisa prá fazer.
De minha parte estou de agenda cheia.
No meio da tarde, jogo bocha com a turma da associação dos aposentados e depois fico para a happy hour.
Tua mãe também não gostou muito. 
Beijo da mãe, bênção do pai.

Junho
Acabo de comprar um pequeno barco inflável pra pescar.
Só me falta companheiro de pescaria.
Tua mãe não ficou muito satisfeita e agora inventou de colorir estátuas de gesso.
Ela pintou algumas estátuas de Santa Edwiges e está vendendo bem, na feirinha.
Um dos quartos virou oficina e o cheiro de tinta está insuportável.
De resto, mudamos um pouco a rotina: estamos passando as tardes nas casas de bingo.
Beijo da mãe, bênção do pai.

Julho
Estimado, o vento Sul aqui é de lascar e ainda não consegui botar o barco na água.
Desde o início de junho não estamos mais caminhando na praia.
Parece que a maresia enferruja os ossos, de tanto frio e chuva.
Só saio de casa para o aperitivo do almoço e pra happy hour no barzinho dos aposentados.
O médico mandou parar com os aperitivos.
Tua mãe também acha que estou muito barrigudo.
Beijo da mãe, bênção do pai.

Agosto
Estimado filho, orgulha-te:eu fui eleito síndico do prédio!
Por unanimidade!
Tua mãe acha que o mês não foi propício para aceitar a incumbência.
Ela diz que agosto atrai coisa ruim.
Amanhã temos uma reunião de condomínio pra decidir a nova pintura da fachada do edifício, manutenção de dois elevadores, reforço nas fundações e reforma de todo o sistema hidráulico e elétrico e não para de chover.
Beijo da mãe, bênção do pai.

Setembro
Estimado, o feriadão da Semana da Pátria foi um inferno.
Invadiram nossa praia.
Bem na frente do prédio, toneladas de som e cerveja.
Só conseguimos dormir depois das duas da manhã.
A vizinhança diz que isso foi coisa pouca, na temporada todos dormem quando o dia amanhece mesmo com muita chuva.
Tua mãe está nervosa e eu não estou com bons pressentimentos.
Beijo da mãe, bênção do pai.

Outubro
Estimado, o tempo está esquentando mesmo com chuva: nos fins de semana já não dormimos em paz, o movimento no balneário começou a subir e os preços também.
Sábado faltou luz, domingo faltou água.
Amanhã tem reunião de condomínio para comprar um gerador e furar um poço artesiano.
Sobrou prá mim.
Vendi o barco inflável que nunca usei.
Tua mãe não se conforma com a minha barriga e agora não sai mais de casa, nem para vender as estátuas de Santa Edwiges. Colocamos o apto a venda.
Beijo da mãe, bênção do pai.

Novembro
Estimado, eu não sei o que está acontecendo.
Os vizinhos gaúchos, paulistas e catarinas já botaram os apartamentos pra alugar e vão voltar pra suas origens, em dezembro.
Os argentinos e paraguaios vão ficar.
Mas os portenhos não tem onde cair mortos e os paraguaios,correm boatos, são uma gente exilada por corrupção ou coisa que o valha.
Tua mãe continua inconformada com a minha barriga e jogou pela janela todo o estoque de estátuas de gesso. Já vendemos o apartamento para outro aposentado.
Beijo da mãe, bênção do pai.

Dezembro
Estimado filho, estou de volta para onde nunca deveria ter saído.

Beijo da mãe, bênção do pai.

Dante Mendonça
Jornal  Estado do Paraná

15.10.22

A diferença que pode matar o segundo turno no Brasil: o ogro não queima dinheiro. OU: foco no churrasco.

Tempos atrás escrevi uma metáfora do primeiro turno das eleições, comparando-o à troca de um churrasqueiro experiente, porém escroto, pelo "namorido" de uma das convidadas, que deixou a desejar no manejo da carne - e no cuidado com o dinheiro do pessoal. Imaginava que Lula daria uma bela sova no Bolsonaro, pensando que o eleitorado estaria enojado com o "mito" e que desejava mudanças, a qualquer preço, só para se ver livre do ogro que nos governa.

Ledo engano. 

O primeiro turno reforçou dois fatos: o Brasil é um país conservador até a medula; e o brasileiro de direita aprendeu o que significa fidelidade partidária - ou ideológica, que transcende os rótulos partidários. Quem foi eleito pelo bolsonarismo sabe que não poderá falhar na defesa deste projeto, sob pena de ser ejetado do poder pelos "minions", como demonstram as votações de Joyce Hasselmann e Alexandre Frota em 2022.

A direita bolsonarista aprendeu com a esquerda radical: se não defende o "mito" não é digno do meu voto - o que não deixa de ser uma evolução do eleitorado, ainda que não seja a eternização da polarização PT vs PSDB desejada por cientistas políticos especializados no assunto.

...

Fenômeno bastante estranho, aliás, é o que está ocorrendo no segundo turno: radicalização do discurso de Lula, e tranquilidade aparente nas falas de Bolsonaro no horário político. O esquerdista de carteirinha do PT vibra, com a "reação" do "barbudo" - mas se esquece de que campanha, e governo, não são voltados somente aos que sonham com um governo "progressista socialista" com certeza, mistura daquelas "democracias populares" de Venezuela e Cuba (e, desculpem a ironia: eles acreditam MESMO nisso).

Governo, no Brasil, pressupõe coalizão de interesses e responsabilidade, coisa que Lula ainda não mostrou que irá fazer, muito pelo contrário. O que vem por aí, já citou o ex-presidente, é mais do Estado indutor, a política de busca do desenvolvimento sem limites, que já foi tentada mais de uma vez no país - mas que falhou em controlar os destinos do dinheiro investido e a efetividade deste retorno.

Lula se recusa a ser responsável, sinalizando que os interesses do mercado (e as certezas da sociedade) não serão atendidos, ao menos num primeiro momento - por esse motivo soa como um irresponsável, influenciado por pessoas que, de experiência em experiência, fizeram país atolar em crises no passado. Acrescente-se a isso a insistência em entrar nas pautas morais, em que Bolsonaro nada de braçada, e está pronto o cenário no qual a perspectiva de uma virada inédita em segundo turno é cada vez mais real.

A sorte do "barbudo" é que economia vai bem, mas o povo vai mal; só por isso Lula ainda está na frente nas pesquisas. Cada vez mais, contudo, percebe-se que de um lado há alguém que gastaria todo o dinheiro do governo em experiências desenvolvimentistas, de resultados duvidosos - e do outro lado há um "ogro", que, apesar de agir constantemente de forma indigente com relação o cargo que ocupa, não rasga nem queima dinheiro, o que faz bastante importância para o cidadão comum.

...

Um colega de longa data meu texto, e respondeu de forma seca: "FOCO NO CHURRASCO". Será que isso significa que o povo brasileiro tenha percebido o que realmente está em jogo nesta eleição?

Saberemos, em 30/10.

22.9.22

"O tiozão do churrasco e o 'namorido' da 'miga' empoderada: uma metáfora do Brasil de 2022"

Numa casa brasileira os donos tinham o hábito de periodicamente promover um churrasco. Convidavam os amigos e parentes, do marido e da esposa, e passavam bons momentos, jogando conversa fora, comendo e bebendo para celebrar a vida.

Nos últimos churrascos quem estava cuidando da churrasqueira era um parente do marido. Excelente pilotando a grelha, fazia questão de comprar as melhores carnes e a cerveja, sempre da melhor marca, e que estava estupidamente gelada, além do o refrigerante, para a garotada. 

No dia, chegava duas horas antes do início das festividades, para preparar a carne com o sal grosso "de lei" - de tal forma que, na hora certa, ia mandando as carnes aos poucos, na maioria mal passadas ou ao ponto, e umas poucas bem passadas, para os que "não gostam de sangue". 

Tudo feito com zelo, como convém a um bom churrasqueiro, a não ser por um detalhe: o cidadão era um tremendo ogro. "Tiozão do churrasco" mesmo, daquele que faz a piada clássica do "pavê ou pa cumê" - e que se torna rapidamente, à medida que a cerveja vai saindo do freezer e entrando na mente das pessoas, uma metralhadora de inconveniências, uma atrás da outra.

...

É piada machista pra lá, tirada jocosa de lá, e a mulherada cada vez mais constrangida, enquanto pegavam uns pedaços de carne e comiam junto com o arroz e feijão.

Sim, porque a parte feminina do churrasco também preparou algo além da carne. Arroz, feijão, salada, "batatonaisse", uns pedaços de frango (tostados pelo "tiozão" inconveniente), além de outras tantas coisas que fazem com que o churrasco de família não seja só um churrasco.

Naquele ano destacou-se em especial um prato: uma "caponata" de berinjela divina, feita pelo "namorido" de uma das "migues" da dona da casa. Esta 'miga', empoderadíssima, resolveu chamar a esposa num canto, reclamando do porque do "tiozão" do churrasco estar proferindo todo tipo de impropérios inconvenientes para todos - mulheres, crianças e homens (embora os últimos estivessem preferindo comer a carne e falar besteira do que se importar com o "tio do pavê").

Ao final, sugeriu a 'miga': "olha, se você quiser o meu 'namorido' pode ser o churrasqueiro daqui para a frente, ele é ótimo com carnes, conhece de-tu-do e sabe grelhar como ninguém - sem falar que foi ele que fez essa 'caponata' divina, olha só como to-do-mun-do-gos-tou-dela...".

...

Final da festa, a mulher vai falar com o marido, possessa da vida: "você precisa deixar o 'fulano' de fora, veja só quanta vergonha ele nos fez passar, ele é machista, chauvinista, racista, fico morrendo de vontade de sumir quando ele fala aquelas coisas horríveis, e isso, e aquilo, e...".

O marido, cansado, não está a fim de discordar da esposa. Quer paz, e aceita a sugestão da patroa: no churrasco seguinte eles não convidarão o 'tiozão' e o 'namorido' vai assumir a churrasqueira.

...

No churrasco seguinte o alívio é geral por parte das mulheres. O tiozão do churrasco não vai estar lá, já foram avisadas de antemão pela dona da casa - motivo pelo qual muitas até se animaram mais com os pertences. O arroz está mais soltinho, o feijão, radiante, bastante verduras, e a soberana 'caponata' de berinjela, reinando entre os acessórios do almoço familiar.

Sim, almoço. Porque o churrasco...

Bem, o afamado 'namorido' se provou um tremendo fiasco: chegou em cima da hora, botou as carnes de qualquer jeito na grelha, deixou muita coisa passada demais, inclusive queimando algumas carnes (algumas, não; muitas). 

Usou uma mistura de temperos na carne que tinha tudo, menos sal grosso. Inventou de fazer legumes na chapa e colocou mais frango para grelhar - que nem as crianças comeram direito, já que estapearam as poucas linguicinhas que haviam sido deixadas para esturricar pelo gaiato.

No final, até a cerveja estava morna - e de uma marca horrorosa, que nunca tinha passado pelo freezer do dono da casa. Refrigerante? Trouxe suco - que acabou sobrando.

...

Depois de todos se despedirem, não antes de ter desfrutado da sobremesa (pudim aerado, acompanhado de um suspiro esquisito que alguém chamava de "pavlova"), o marido chama a esposa no canto. Está com cara de poucos amigos, entre decepcionado e possesso.

"- Mas o que foi, querido?" 

"- O que foi? Você vai ver...".

Mostra a ela um cupom fiscal, das compras do churrasqueiro - que, neste caso, se responsabilizava por tudo, do início ao fim do processo. Verifica-se que o açougue não é o mesmo em que compravam a carne; é outro, de qualidade bem inferior; que tudo tinha sido comprado por um preço bem mais caro do que o 'tiozão' comprava; fora uma série de outras coisas que fizeram o dono da casa desabafar com sua esposa:

- Você me disse para chamar esse cara pra fazer o churrasco. Pois bem: ele trouxe cerveja ruim, carne ruim, errou o ponto de TUDO no churrasco e ainda pagou mais caro pelas carnes e pelo resto. ELE ROUBOU TODO MUNDO!!!! O que você me diz disso?

E a esposa, entre sem jeito e sem paciência, retrucou:

- É... mas você viu como o ambiente estava mais leve, sem gente inconveniente? Foi um almoço excelente... sem falar que a caponata estava maravilhosa... você deveria tê-la provado... um luxo de gostosura!!!!


7.5.21

Prosa: Devaneios e soníferos



Há coisas, na vida, que dependem de você. 





Como você age, o que você faz, o que você é.








Eu, por exemplo, detesto o que é muito radical. "Com emoção", para mim, é uma desgraça completa: não consigo sentir paixão em algo que é feito, simplesmente, para descarregar adrenalina, arriscar-se sem sentido algum em algo apenas para gritar "uhu", "aha" e depois dizer "você viu?".









"Ah, mas você gosta de moto"... cara, eu gosto de moto para VER a paisagem, OBSERVAR cada detalhe, e, depois, CURTIR o resultado.









Calmamente, passo a passo. Não num assombro.






...






Estou mal, cansado, sonado, com vontade de parar - mas não posso. Não dá.









E isso, por dentro, me consome.









Muito.







fps, 26/06, 10:41



30.10.20

Prosa: Fragmentos II


- Eu estava com vontade de falar com ela, depois de dois ou três dias corridos cuidando de tudo. Aí, justamente naquela hora, os "malas" chegaram e tiraram todo o meu espaço. Dureza...





fps, 24/01, 11:23


12.8.20

Prosa poética









Enquanto você pedir desculpas, 


eu estarei aqui. 






Mesmo se não pedir desculpas, 


ainda estarei perto.





O dia, contudo, 


em que seu olhar me disser "tô nem aí com você", 


será o dia de partir.





Por isso me preocupo


quando você passa a agir sem um pingo de empatia por mim.





Porque sinto que esse é o começo do fim.








Afinal, festas e deslumbres não substituem 


um bom papo com vista para o céu.





fps, 24/01, 11:04


















7.5.20

Prosa poética








Está gelado lá fora... 





e meu coração está quente... 








mas o frio torna ele morno... 





está calmo, não sereno...










... a brasa torna ele em sauna... sublima os sentimentos... 





faz o gelo virar vapor... e chuva...



... que seca os olhos... 








e que faz lembrar porque escrevo.








fps, 02:01 de 31/10 (um dia quente para dedéu)









8.4.20

Prosa - na verdade, reflexão


Uma coisa que ninguém fala sobre os amigos virtuais é que eles não te machucam, ou ferem, sem uma resposta. Caso você leia algo que não te agrade, simplesmente bloqueia a pessoa (ou silencia) e segue a vida.





No caso do mundo real, é diferente. A esposa que te machuca com o olhar ainda está lá; o marido que demonstra insensibilidade ainda se encontra por lá; os filhos negligentes continuam por ali - ou melhor, não continuam, porque o celular os ocupa, com os verdadeiros amigos que ficam longe demais, ou perto demais.





Antes de criticar porque nos voltamos demais ao virtual deveríamos fazer uma pergunta singela: "o que estamos fazendo de errado para que aqueles ao nosso redor fujam da gente?". Responder a essa pergunta, contudo, é muito difícil, pois exige autoavaliação do ser humano.





É mais fácil voltar-se ao virtual, que é frio, distante - mas te compreende, mais do que aquele que está do teu lado.





fps, 14/02, 10:05


3.3.20

Prosa, incompleta: Fragmentos I


- Ah, claro que eu fico de saco cheio.





- Ela quer ir para o interior, mas no fundo quer mesmo é ir para a casa dela, para a família dela, as coisas dela.





- Marido? Essa coisa insossa? Só atrapalha. Não ajuda, não faz nada, só reclama. 





- Se ele não existisse na vida dela, talvez seria melhor - para ela e para todos.






(...)





- Mas será que você realmente acredita em tudo isso?




fps, 24/01, 11:49



7.2.13

Prosa, ou poesia: Porquês

PORQUEk
“Porque deveria me preocupar com o que não existe?

Porque deveria agir de maneira difusa, 
sabendo que minha vida não está ameaçada por nada, 
nem por ninguém?

Estou bem, tenho saúde, vivo bem, 
não preciso disso, droga!

Porque esperar aquilo que não existe, 
como se fosse algo real?

Porque fazer com que tudo isso se torne um pesadelo sem pé nem cabeça, 
sem nexo, sem nada ?

Que idiotice, que grande e grossa idiotice.

Que besteira!

Porque se preocupar com o que ainda está por vir, 
se eu sou muito maior que tudo isso?

Besteiras, besteiras, somente besteiras, i
sso é o que está acontecendo.

E sabe do que mais? 

Tenho muito mais o que fazer do que esperar o tempo passar, 
e ficar sonhando com o que não existe.

Esqueçamos isso, e vamos em frente.

Apesar de tudo.”

fps, 23/10/95












2.2.10

Sobre a blogosfera e a vida

Hermenauta, Idelber, Alto Volta, Ao Mirante Nelson ...

Sempre que um nome conhecido da blogosfera atuante deixa oficialmente de postar, ou deixando seus blogs em hibernação prometendo voltar mas parecendo que foram comprar cigarros na esquina para não voltar mais nos próximos anos, a gente sente um pouco.

Seja para cuidar dos twitters, de novos desafios ou mesmo do poderoso "fator nhé" (uma trouxinha que faz xixi na cama, chora e te dá insônia, mas que você ama de paixão), o fato é que parar de blogar faz parte da vida, e, principalmente, do amadurecimento de novos projetos, que trazem a marca da seriedade mas também a exclusividade sobre a nossa tão agitada agenda.

E então, paramos – para novos desafios e novas respostas.

E alguém tem que assumir esse papel, o de voz alternativa de uma sociedade que procura por respostas, já que, ao contrário de boa parte dos blogs famosos, que são pagos ora para escrever o sonho midiático da classe média, ou para servir de passatempo para endinheirados, ou como ponta de lança de bons negócios, quem escreve por gosto faz um trabalho bem mais apurado, e simplesmente porque gosta do que escreve.

Só isso.

E, embora possa parar porque a necessidade (vulgo "vida real") nos chame, sempre vão existir os que continuam a tocar o barco e acreditar que se pode viver um pequeno sonho.

O sonho de escrever – e ser lido por quem aprecia uma boa prosa, ou poesia.

Por isso, aos que foram, muito obrigado.

E aos que tentam manter essa chama acesa: bola pra frente, gente!!!

10.7.07

Mexer em blog faz bem, vocês não sabem como !!!

Ao menos numa noite em que se está mal-humorado e não se tem muita coisa para fazer a não ser aproveitar e perder alguns segundos preciosos de sono achando que, pelo menos dentro da Internet, se é o maioral e se pode fazer alguma coisa além de lamentar o tempo perdido e cultivar uma auto piedade destrutiva e - porque não - talvez insana.

É nesses momentos que, ouvindo Carlos Santana e pensando em como seria bom tomar um café em um lugar perdido no meio do nada, simplesmente vendo o tempo passar, ou lendo um jornal sem eira nem beira, pode-se descontar as frustrações virtuais simplesmente arremessando pinguins para longe, ou procurando espaços perdidos de um passado, que não voltará porque não podemos voltar, mas que não deixam de ser pontos, vagando em direção a um futuro, que não se sabe como é porque não é perceptível, como as flores que caem e que não deixam sentido em sua vida.
E é quando percebemos que nada mais podemos fazer a não ser olhar para nós mesmos é que pensamos que é muito bom passar o tempo apenas curtindo, e lembrando que temos que olhar para a frente - aí sim é que percebemos o valor de exercícios literários como esse, em que se escreve apenas pensando que ninguém vai ler essas linhas, mas que se tem a certeza de que, em algum lugar, alguém ouvirá esse lamento, e de que é melhor transformar seus sentimentos em literatura de qualidade mediana que soltar as palavras ao vento - porque ao menos a poesia e a prosa servem como bons indicadores do que se é, ou do que virá a ser, e se estou escrevendo esse texto é porque de uma certa forma eu vivo, e não estou morto, se é que me entendem bem.
E é por isso que mexer em blog faz um bem que você não acredita, e é por isso que eu vivo e sou feliz, e é exatamente por isso que ainda não enlouqueci de todo, e é por isso que EU jamais pensava que me amava tanto e nem sabia como !!!

2.8.05

Porque nem tudo é poesia ou prosa ...

Dos melhores "arquivos mortos" do sistema eleitoral, em tempos de CPI e que tais (e a reforma política, a maldita mãe das reformas que nunca chega), uma boa crítica de O Globo, escrita por um de seus editores:

Manter as regras
ALI KAMEL

Alguns leitores se espantaram quando disse aqui que em todos os países há inconformidade com o sistema eleitoral. E, no entanto, isso é verdade. Mesmo nas democracias mais consolidadas, há movimentos buscando reformas. A sorte deles é que esses movimentos não vão adiante. Porque qualquer novo sistema produzirá novas críticas. Mais importante do que reformar é garantir que os eleitores conheçam bem o sistema e, assim, saibam como fazer para levar ao poder os seus preferidos. Manutenção das regras, eis a chave de um bom sistema.

O que aqui chamamos de sistema distrital, adotado nos EUA e no Reino Unido, por exemplo, tem sofrido toda sorte de críticas. Nesse sistema, o país, o estado ou a cidade são divididos em distritos. Para facilitar, imagine um distrito que eleja apenas um deputado. E que cinco candidatos, de partidos diferentes, concorram ao posto. O mais votado será o único eleito. No meu exemplo, suponha que, dos cinco candidatos, três consigam 20% dos votos, um, 17% e o terceiro, o vencedor, 23%. Com apenas 23% dos votos, ele representará todo o distrito. Na prática, os que não votaram nele ficarão sem representante. Imagine agora que todos os distritos do país tenham tido comportamento igual. Isso significará que, com apenas 23% dos votos, um partido terá 100% das cadeiras do Parlamento.

Evidentemente, isso é um exemplo que dificilmente acontecerá na realidade. Mas, freqüentemente, o partido vencedor tem proporcionalmente menos votos populares do que lugares no parlamento. A vantagem desse sistema é que ele é mais propício a dar origem a maiorias sólidas. Os trabalhistas ingleses tiveram 37% dos votos populares, mas ficaram com 55,2% dos assentos no Parlamento. Os conservadores tiveram 33% dos votos populares, apenas quatro pontos a menos do que os trabalhistas, mas ficaram com 157 cadeiras a menos. É democrático? É, porque os trabalhistas venceram nos distritos. Mas parte da sociedade ficou sem representação.

Há países que adotam o sistema de dois turnos: os dois mais votados no distrito voltam a disputar. Na França, o segundo turno é disputado por todos os candidatos que obtiverem pelo menos 12,5% dos votos, ganhando quem obtiver a maioria simples. Esse modelo, porém, agrava a sub-representação: um partido minoritário que tenha conseguido a maioria simples em um único distrito pode ficar sem essa vaga no segundo turno se seus adversários se unirem contra ele.

Isso é parcialmente resolvido nos sistemas proporcionais. No exemplo que dei antes, os cinco partidos elegeriam parlamentares: três partidos teriam 20% do Congresso, um teria 17% e o terceiro, 23%. Nos sistemas de listas fechadas, o eleitor vota no partido e nem toma conhecimento de quem são os candidatos. Quem dirá sempre quem são aqueles que serão os representantes do povo serão as burocracias partidárias. Se um partido tiver conquistado o direito de eleger 12 deputados, os eleitos serão os 12 primeiros de uma lista definida, antes, pelo próprio partido. É democrático? É, porque os eleitores delegaram isso aos partidos.

Mas eu não me sentiria confortável sabendo que meia dúzia de pessoas escolheu meus representantes. Isso não acontece no sistema de listas abertas, em que o eleitor escolhe a ordem dos eleitos. Os mais votados do partido são aqueles que serão os escolhidos. Se o partido tiver conquistado o direito de eleger 12 deputados, os 12 mais votados serão os eleitos. Dizem que só no Brasil e na Finlândia há sistema proporcional com listas abertas. É falso. Vários países da Europa, como Holanda e Suécia, têm listas abertas. São mais restritivas, porém. Na Suécia, o eleitor vota no partido, indicando o candidato de sua preferência. Se o partido conquistar o direito de eleger quatro deputados, os eleitos serão os mais votados desde que tenham obtido, no mínimo, 8% dos votos do partido. Se o quarto mais votado tiver obtido 6%, ele deixará de ser eleito e em seu lugar entrará aquele que o partido tiver posto na frente na lista feita antes da eleição. Mesmo que esse candidato tenha obtido menos que 6% dos votos. Neste sistema, o partido guarda boa influência.

Aqui no Brasil, não é assim. O eleitor tanto pode votar na legenda como no candidato. Os votos no partido ajudarão a dizer quantos deputados o partido elegerá, mas os eleitos serão sempre os mais votados. Vejamos o caso do Enéas. Ele teve um milhão e oitocentos mil votos e, com isso, o Prona ganhou o direito de eleger Enéas e mais cinco deputados. Quatro deles, no entanto, tiveram, cada um, menos do que mil votos. Isso é um problema? Não sei. Porque pelo sistema de lista fechada os parlamentares não têm voto algum. Portanto, nisso, o nosso sistema é parecido com o de listas fechadas, que querem adotar. Quem fica insatisfeito com essa peculiaridade ficará ainda mais com o sistema que estão propondo.

A grande desvantagem de sistemas proporcionais, de lista aberta ou fechada, é que eles respeitam as diversas correntes de opinião mas, por isso mesmo, fragmentam muito o espectro político, tornando difícil o advento de maiorias de um partido só. Como tive oportunidade de dizer, vejo isso como vantagem: é o antídoto para salvadores da pátria, o governo terá de refletir sempre um arco de pensamento necessariamente mais amplo.

Para contornar esses problemas, algumas nações adotaram o chamado voto misto: parte dos deputados é eleita pelo voto distrital e parte pelo voto proporcional. Esse sistema, porém, guarda os defeitos dos dois outros e nenhuma das suas virtudes: as maiorias são mais difíceis de serem alcançadas do que no distrital puro e as correntes de opinião continuam sub-representadas. Eu poderia relacionar aqui outros sistemas eleitorais para mostrar que todos têm defeito, mas creio que estes já são suficientes.

Nosso sistema precisa criar cláusulas de barreira e fidelidade partidária. Com isso, temos grandes chances de resolver o problema de maiorias estáveis. Acordos feitos entre os partidos terão de ser respeitados pelos deputados. Mas mais importante do que mudar as regras é fortalecê-las. Se nós tivermos instituições fortes, moral elevada, ética, uma polícia vigilante, um Judiciário zeloso, roubar, aceitar mensalão ou usar cargo público para roubar serão exceções. Não adianta mudar as regras. É preciso que elas sejam cumpridas.

Agora, duas perguntas, a título de pesquisa de opinião:
1. Você acha que vale a pena discutir política ou prefere apenas fazer o jogo das "CPI caras" da vida? Vale a pena discutir política, ou é melhor falar só de literatura e dos "que tais" da vida?
2. Aliás, o que você sabe sobre os termos que estão descritos nesse texto?

4.7.05

Sobre o blog


Tudo começou quando um rapaz que trabalhava na Escola Dominical de sua igreja foi desafiado por um presbítero (oficial leigo) a escrever uma devocional para o boletim da mesma; esse projeto de escritor (e que ainda se considera em projeto) escreveu não somente um, mas dois textos de fundo religioso, e uma pequena dissertação sobre as noções do amor próprias de quem tinha apenas 18 anos nas costas e muitos sonhos pela frente.

Tempos depois, desafiado por um colega nos primórdios das listas de discussão que pulavam internet brasileira afora, este mesmo rapaz saiu de um período sabático para reiniciar seu caminho percorrido pela escrita - e foi assim que se tornou um olho clínico expressando opiniões, pensamentos e conclusões e tentando aprimorar seu talento e mostrá-lo ao mundo que se abria diante dele; e que hoje apresenta aos que chegam a esse humilde local.

...

Tirando um pouco a parte póetica da coisa, foi um pouco com esse espírito que criei meu primeiro blog, chamado Olho Clínico (clique aqui para vê-lo), sendo que muita coisa rolou desde então; e, depois de escrever bastante, e publicar meus textos em diversos lugares, optei por unir meus antigos blogs em um espaço único, onde prosa, poesia e textos de opinião (entre outros) pudessem conviver de forma contínua, num verdadeiro cruzamento de pensamentos e idéias que sempre foi o espírito do que sinto e que transfiro ao que eu escrevo.

Esse é o espírito do TrashEtc - um lugar para ajudar a pensar em coisas que não se vê todo dia; para ver poesias e prosas antigas e novas desse que vos escreve, para ajudar a pensar um pouco mais sobre o mundo que nos cerca; e, claro, para também contribuir com suas opiniões e fatos, já que, acima de tudo, são as contradições e conflitos do mundo em que vivemos que são a sua verdadeira essência, no cruzamento do mundo de onde sempre se leva alguma coisa.

No cruzamento do mundo, um pouco de tudo - eis a imagem dessa encruzilhada que eu chamo, carinhosamente, de TrashEtc; sejam bemvindos.

fps, 14/08/2008, 21:05